1 de agosto de 2018

Escrever Histórias


"Não era fácil escrever histórias. Ao se transformarem em palavras, os projetos passeavam pelo papel e as idéias e imagens morriam. Como reanimá-los? Por sorte, ali estavam os mestres para que eu aprendesse com eles e seguisse seu exemplo. Flaubert me ensinou que o talento é uma disciplina tenaz e uma longa paciência. Faulkner, que é a forma — o texto e a estrutura — que engrandece ou empobrece os temas. Martorell, Cervantes, Dickens, Balzac, Tolstoi, Conrad, Thomas Mann, que o número e a ambição são tão importantes numa novela quanto a destreza estilística e a estratégia narrativa. Sartre, que as palavras são atos e que uma novela, uma peça de teatro, um ensaio, comprometidos com a atualidade e as melhores opções, podem mudar o curso da História. Camus e Orwell, que uma literatura desprovida de moral é desumana, e Malraux que o heroísmo e o épico cabiam na atualidade tanto quanto no tempo dos argonautas, da Odisséia e da Ilíada." — Mario Vargas Llosa, em seu discurso por ocasião do Prêmio Nobel.
Tela: Sunset Dreaming. 
Autoria: Carlotta Ceawlin
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Sady Folch – O Peregrino da Palavra
SFC  Storytelling Folch Coaching
Examinez toutes choses. Retenez ce qui est bon.

31 de julho de 2018

NO MEIO DO CAMINHO - Olavo Bilac


NO MEIO DO CAMINHO
(Olavo Bilac)

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

30 de julho de 2018

Um Coração Transformado


Há uma lenda árabe que conta que dois grandes amigos seguiam pelo deserto quando um deles manifestou pensamentos depressivos e iniciou uma discussão. O amigo que o ouvia logo intercedeu pelo outro, tentando tranquiliza-lo. O indivíduo que estava desgostoso passou então a relatar os motivos de sua tristeza e começou a relembrar coisas que o outro o dissera e que o levaram àquela depressão.

Sem conseguir ser dissuadido de que as coisas que ouvira no passado haviam sido ditas para seu próprio bem, o indivíduo que estava profundamente entristecido sacou da adaga que carregava e tentou tirar a própria vida. Neste instante, durante uma rápida distração, teve a arma retirada de suas mãos e de pronto recebeu um tapa no rosto. Assim os ânimos acalmaram-se, e ficaram ali, aguardando em silêncio. Passado um tempo, o que foi ferido escreveu na areia sobre o tapa que havia recebido de seu amigo naquele dia.

Levantaram-se e seguiram o caminho pelo deserto. Ao encontrarem um grande oásis resolveram banhar-se. Aquele que levou o tapa no rosto avançou para a região aonde havia certa profundidade. Nesse momento começou a se afogar, o que fez com que o amigo que mesmo sem saber nadar, saltasse em sua direção, salvando-lhe a vida. Após recuperar-se, o que foi salvo escreveu em uma pedra o que acabara de acontecer.

Nesse momento, aquele que no mesmo dia o repreendeu e também o salvou do afogamento perguntou-lhe por que horas atrás escrevera na areia e ali registrava o ocorrido por sobre a pedra. Quando então, o que foi salvo respondeu: "Você é meu melhor amigo e eu não entendia os seus motivos de repreensão, tomando-os como uma agressão a minha vida. Mas, foram nos momentos seguintes, em que ficamos ali sentados em silêncio, que pude refletir o quanto tudo que fizera tenha sido para o meu bem. 

Por isso fui tomado pelo ato de registrar todos os ocorridos na areia, para que o tempo se encarregasse, através do vento, de apagar aquelas palavras arraigadas em minha mente".

E continuou, dizendo: "Quando chegamos a este oásis, agora então com o espírito transformado, presenciei o ato maior de seu amor por mim, objetivando minha alegria, minha paz e salvação. Consciente disto e ao testemunhar aqui a medida real deste laço, senti a necessidade de escrever na pedra para que nada e nem ninguém pudesse apagar".

Esta lenda nos leva a refletir sobre os testemunhos quando Jesus esteve na terra, dando a medida da compreensão sobre as coisas que Ele disse e tenha magoado pessoas em face das orgulhosas convicções de cada uma delas. Aqueles que não o aceitaram, por manterem vivo seu orgulho, em detrimento de sua paz, escreveram palavras duras em seus velhos corações, eternizando assim seus passos no deserto das trevas da ignorância.

No entanto, aqueles que perceberam que Ele era o Messias, e que mesmo sem pecado, dera sua vida pela humanidade perdida, estes deixaram transformar-se, permitindo a substituição do velho coração por um novo em seu lugar, onde escreveram para a eternidade o testemunho da compreensão do milagre do amor que os transformara, tornando-se luz e refrigério em seu caminho.

Shalom!

Sady Folch – O Peregrino da Palavra


(Foto: Tuareg, by Gilad Benari)

21 de julho de 2018

Fé e Atitude (Conto Judaico)

Conta-se que em certa região da Europa já não chovia há meses. Os agricultores estavam desesperados. Como é costume na tradição judaica, em períodos de seca institui-se um dia de jejuns e orações. 
Desde tempos bíblicos, o jejum está associado à contrição e à concentração, ingredientes tidos como fundamentais para orações e rituais peticionais.
A dita cidade resolveu decretar um dia de orações e jejum para pedir chuva. Todos correram à sinagoga, mas o rabino não apareceu. Resolveram procurá-lo em sua casa e, para surpresa geral, ele estava tranquilamente almoçando.
Perguntaram a ele: Desculpe-nos a intromissão, ilustríssimo rabino, mas acaso o senhor não sabe que hoje foi decretado um jejum?
O rabino, sem se abalar, respondeu: Jejum? Por quê? - reagiu, ironicamente.
- Porque estamos atravessando uma seca muito intensa. Por isso estamos nos congregando na sinagoga com muita fé à espera de milagres.
O rabino foi, então, até a janela e, observando a multidão que ocorria à sinagoga, disse: Fé? Então todos estão rezando por chuva, mas não há um único indivíduo carregando um guarda-chuva.
A fé, assim como a vida, requer atitude. 
(Tela: Alain Corbel)

O Retorno

Depois de muito tempo longe desta página, retorno ao bom ofício. 
Agradeço a todos que por aqui se mantiveram.
Boa semana, amigos leitores.

6 de dezembro de 2014

" Tá Crecêno o Arraiá!!!", por Sady Folch - Um Peregrino da Palavra





O poema “Tá Crecêno o Arraiá!!!”, o escrevi inspirado pela foto noturna da ponte sobre o Rio Cuiabá, registrada pelo fotógrafo e amigo Rai Reis.


Traduz a expressão de um morador ribeirinho, um pescador, que esteve muito tempo longe da cidade e quando a ela retorna, se depara com uma ponte nova e moderna atravessando o rio Cuiabá de sua juventude e cultura.

O poema foi apresentado em 2007, na pós-graduação em Formação de Escritores, coordenada pelo Prof. Gabriel Perissé, na ESDC, em São Paulo. (Sady Folch - Um Peregrino da Palavra)

"TÁ CRECÊNO O ARRAIÁ !!!"

Vidge nossa!! Tá crecêno o arraiá!!
Ostro dia, Vila Reá do Bom Jesus de Cuiabá,
Num foi tempo passô por lá,
Nhô Nezinho, nhô Neco e também Curimbatá...

Os povo que lá habita,
Proseia feito dona Nezita,
E se for pra proseá,
Num tem tempo de amargá...

Inté faláro dos poeta,
E dos sarás que tem por lá,
E os cantadô que num aquéta,
Virô nota de djorná...

Construíro ponte nova,
Pra no rio podê passá,
Esses povo num tá prosa,
O que será do Cuiabá...

Rio belo e formoso,
Dotras vez a navegá,
Hodje, pesca de barranco,
Nem isso tem pra acarmá...

Que sardade de Cuiabá!!!

Da cadêra de balanço,
Na varanda de dona Nhanhá,
Onde nós buscava descanso,
Nos causo a nos contá...

Do poeta Sirva Freire,
Hóme iguar num tinha prosa,
Andava inté dez arqueire,
Pra falá de flôr formosa!

E de nhô Manuer de Barros,
Que pintchô de lá mucinho,
Foi prás banda do Corumbá,
Prá poetá os passarinho...

Que sardade desse tempo,
Das coisa que ficô lá,
Da natureza que era templo,
E dos pêtche do Cuiabá...

Hodje as ponte são moderna,
E os tropêro djá não há,
Nem os gado mais inverna,
Mas resiste o meu ganzá...

Desta forma eu cantarei,
À siriema podê imitá,
E o cururu eu dançarei,
Prá tradiçón num acabá.

Sady Folch - Um Peregrino da Palavra 
(Folch Lore)

. Crédito da foto - Ponte sobre o Rio Cuiabá: Rai Reis (Cuiabá-MT);

. Ilustração do poeta Silva Freire retirada do livro - "Bugrinho - Que menino é esse?", de autoria de Daniela Freire;

. Foto de Manoel de Barros: DVD "Só dez por cento é mentira - Desbiografia Oficial de Manoel de Barros".

26 de novembro de 2014

# O massacre da Vila do Rosário, por Paulo Pitaluga

Mato Grosso, 1892. A situação política era tensa e extremamente grave, como reflexo imediato de acontecimentos ocorridos no ano anterior.

A 3 de janeiro de 1891 haviam se realizado eleições para a Assembléia Constituinte, vencidas pelo Partido Nacional Republicano - PNR, cujo chefe inconteste era o General Antonio Maria Coelho, Presidente Aclamado do Estado de Mato Grosso. Exonerado esse primeiro Presidente, por instâncias e dissidências com Generoso Ponce o chefe do Partido Republicano - PR, assumiu a Presidência do Estado o Cel. Frederico Solon Sampaio Ribeiro. Este, convencido das ilegalidades cometidas pelo Partido Nacional, anulou as referidas eleições de 3 de janeiro. 

A 28 de maio, nova Assembléia Constituinte foi eleita com maioria dos deputa-dos do PR, nesta altura já no poder e esta Assembléia, de forma indireta, conforme preceito constitucional vigente, elegeu como Presidente do Estado o Dr. Manoel Murtinho e 1o., 2o. e 3o. vice-Presidentes, respectivamente, Generoso Ponce, José da Silva Rondon e Pedro Celestino Corrêa da Costa. No entender dos membros do PNR, o ato de anulação das eleições fora uma simples manobra política do partido adversário, tal seja, um golpe de estado visando a tomada do poder.



# A divina gargalhada, por Gabriel Perissé

Quer fazer Deus rir?
Conte a Ele os seus planos.
Conte com cuidado e precisão o seu brilhante planejamento para o dia de hoje.
Conte a Ele como será a sua vida no ano que vem.
Conte a Ele, nos mínimos detalhes, o que você vai fazer, conseguir, conquistar.
Conte a Deus - e Ele prestando atenção com cara de sério - todos os passos da construção desta torre, desta pirâmide, deste império que você chama de futuro.
Conte a Ele o quanto, o como, o quando, o tudo. 
E você ouvirá por trás das nuvens,
por dentro das pedras,
no verde das plantas,
nas ondas do mar - você ouvirá
a gargalhada divina ressoar infinita,
cheia de gratidão pela bela piada que você contou.

(Gabriel Perissé, 26/11/2014)

25 de novembro de 2014

# Ouse Crer, por Marco Aurélio Brasil

Resolvi me presentear com um livro que há muito estava curioso para ler. Ouse Crer, do escritor e advogado Marco Aurélio Brasil. Inicialmente, me dirigi a uma rua aqui em São Paulo onde se encontra todo tipo de literatura cristã. 

Pois bem, em mais de 15 livrarias que passei, o atendente logo me perguntava em que poderia me ajudar, e eu, diretamente respondia: Ouse Crer.
 
Para minha surpresa, me perguntavam o nome da editora, quando então eu dizia: CPB. Novamente surpreso, eu ouvi em todos os lugares a mesma resposta: Não seria CPAD? E eu: Não, é CPB - Casa Publicadora Brasileira. Resultado: em nenhum lugar ouviram falar do livro e nem da editora. 

Pensei comigo: em que planeta vivem essas livrarias que não conhecem uma editora tão expressiva na área em que eles mesmos se interessam? Resolvi me dirigir a uma livraria da própria CPB, também no centro da cidade e ali encontrei o que precisava. Ouse Crer, de Marco Aurélio Brasil. 

Ouse Crer irá te provocar à medida em que apresenta situações difíceis que precisam de ousadia para serem enfrentadas. Ainda estou no início da leitura, mas o livro já se mostra estimulante, convidando-nos a viver a fé de forma que faça toda a diferença. Como dizem, ousar crer torna-se a possibilidade de vivermos uma experiência real com Deus. 

Bom, quanto às livrarias por onde passei, conclui que cada pessoa que me ouviu citar o nome do livro, um aspecto se acrescentou às suas vidas. Ouviram esta frase que é no mínimo, impactante, sacudindo os alicerces da fé: Ouse Crer!

Sady Folch 
Um Peregrino da Palavra

23 de novembro de 2014

# Saudações a Manoel de Barros

Nhô Manuer, hoje eu amanheci lendo seus escrivinhamentos. Sabe como é, bateu aquela saudade de palavras que refrescam os pensamentos. Emocionado, não resisti e escrevi estas palavras. Sinhô, o Beco da Marinha em Cuiabá saúda a sua memória!

Sady Folch
Um Peregrino da Palavra

22 de novembro de 2014

# O resgate de um gênero literário esquecido: a parábola

Em seu novo livro, O que eu disse ao general (Oitava Rima, 2014), Anderson Fonseca atravessa a fronteira do conto, confrontando-se com um gênero literário pouco praticado em nossos dias: a parábola.

Talvez muitos leitores se esquivariam da leitura de um livro dito como “coletânea de parábolas”. Portanto, precisamos esclarecer algo. A parábola tradicional, como aquelas que encontramos na bíblia, possuem uma narração alegórica que contêm algum preceito moral – por exemplo as contadas por Jesus sobre O bom samaritano e O filho pródigo. Mas as parábolas que encontramos em O que eu disse ao general não possuem qualquer inclinação religiosa. E, ainda assim, demonstram o fanatismo humano, cuja ignorância se esconde atrás de uma causa ou bandeira.

20 de novembro de 2014

# Tereza de Benguela


Neste data em que se comemora oficialmente o Dia da Consciência Negra, minhas lembranças se voltam à memória de Tereza de Benguela, a rainha negra que em meados do século XVIII comandou o Quilombo do Quariterê, próximo à Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato-Grosso.
Sady Folch
Um Peregrino da Palavra




Foto: Ruínas da Igreja Matriz na cidade de Vila Bela.

13 de novembro de 2014

# Rãs em Cantoria ( Para Manoel de Barros), por Sady Folch

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Este pequeno conto, eu o escrevi há sete anos para falar de minhas experiências literárias com Manoel de Barros. Hoje, 13/11/14, o reescrevi pela ocasião, mantendo a essência da história. Aqui o registro em público pela primeira vez, em homenagem a esse maravilhoso ser humano, que nesta manhã chuvosa de primavera, poetizou a passagem. 

Sady Folch
Um Peregrino da Palavra
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5 de outubro de 2014

# Oleg Almeida entrevista Carlos Trigueiro

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Publicado em GERMINA literatura, no Blog do Galeno e na Eisfluências, de Portugal.

Por Oleg Almeida

Foi a escritora Cida Sepulveda, minha amiga de longa data, quem me apresentou Carlos Trigueiro. “É um cara fantástico!” – disse-me ela. – “Que pena a imprensa lhe dar pouco espaço”. Conseguindo na Internet os dados biográficos desse autor, fiquei um tanto desconfiado. “Estudou Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas… trabalhou no Banco do Brasil… fez uma pós-graduação em Disciplinas Bancárias na Universidade de Roma… abordou diversos temas socioeconômicos em seus artigos…”. E daí, perguntei a mim mesmo, o que é que esse currículo tradicional de um economista tem de tão extraordinário assim? Comecei a folhear o romance Libido aos pedaços, recém-lançado pela Editora Record, e minha opinião sobre Carlos Trigueiro mudou, quase de imediato, da água para o vinho. À medida que lia sua prosa arguta, inteligente, bem persuasiva na captura dos mais finos matizes da psique humana e, ainda por cima, escrita naquele belo português dos tempos clássicos que hoje em dia parece invulgar, se não exótico, surgia-me vez por outra a impressão de que realmente o santo de casa não faz milagres.
Cheguei a comprovar tal hipótese ao conhecer as demais obras de Carlos Trigueiro e, sobretudo, ao travar uma conversa amigável com ele próprio, esse homem sábio, irônico, instruído ou, quem sabe, desiludido pela sua vida em que duas atividades antagônicas, a economia e a literatura, formam um arabesco singular e harmonioso. Acho que está na hora de compartilhar com nossos leitores o essencial dessa longa conversa…


23 de setembro de 2014

# Traduzir-se, por Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

14 de agosto de 2014

# A mulher que quero, por Pio Vargas

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Eu quero uma mulher de aço
que seja leve como a pena,
cujo sorriso seja um laço
a me prender como um poema..
Eu quero uma mulher madura
a me guiar durante o dia,
quando for noite ser vadia
a me domar sem armadura
e a me tomar como num sonho,
uma mulher que seja a lua
dentro do sol em que me ponho.

12 de agosto de 2014

# Amar, por Florbela Espanca

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Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar

Florbela Espanca

Poetisa Portuguesa

17 de agosto de 2013

# O Tempo do Verbo

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“Era uma vez...” Assim começam as estórias que ouvimos quando crianças, a contarem aventuras vividas por personagens fictícios ou não. Esta frase, sobretudo à primeira vista, nos remete a um tempo passado, longínquo, vivido por alguém ou em face de algo, contudo, aquele instante parece que surgirá diante dos olhos de quem ouve; e, ainda que advindo de um espaço que nem sempre determinamos, contudo pode estar ao nosso redor, ali mesmo. Tudo isso carrega consigo uma carga de expectativa, marcada pela própria expressão, tanto que a ela se designou ser a abertura das portas da imaginação, e que por tantos contos, fruto da realidade.

“Agora eu era o herói...” Assim iniciou o compositor Chico Buarque, uma das letras de suas canções, poetizando e parafraseando a voz da criança que brinca, distorcendo o sentido do tempo, contraposto ao sentido adulto aonde sabemos que, agora, somente posso ser, e quando eu era, possivelmente, não o seja mais. Contudo, sendo esta a linguagem usada pela criança em seu momento mais lúdico, com uma carga de realidade inconteste, tem em si a existência daquilo que é criado, que de fato existe, incorpora-se e não se perde.


11 de agosto de 2013

# Conselhos de pai


Dei-lhe a vida, mas não posso vivê-la por ti! Posso ensinar-te muitas coisas, mas não posso obrigá-lo a aprendê-las. Posso dirigir-te, mas não posso responsabilizar-me pelo que fazes. Posso instruí-lo a respeito do bem e do mal, mas não posso decidir por você.

Posso te dar amor, mas não posso obrigá-lo a aceitar. Posso te ensinar a repartir, mas não posso te forçar a fazê-lo. Posso falar-te acerca do respeito, mas não posso exigir que sejas respeitoso. Posso aconselhar-te sobre as boas amizades, mas você é que as escolherás. Posso educar-te sobre sexo, mas não posso te manter puro. Posso falar acerca da vida, mas não posso construir em você uma reputação. Posso te dizer que o álcool é perigoso, mas não posso dizer não por você. Posso te advertir sobre as drogas, mas não evitar que as use. Posso te apresentar boas pessoas, mas não posso te obrigar andar com elas. 


4 de março de 2013

# Cogito, por Torquato Neto


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

17 de fevereiro de 2013

# Navegar é preciso, por Sadi Peregrino

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Só mesmo a sabedoria que diz como posicionar as velas em proveito dos ventos, a fim de navegarmos com firmeza em meio às tempestades que nos golpeiam, tornar-nos-á reconhecidamente vencedores, fazendo-nos surgir incólumes pela transparência que nos permitirá navegar as águas tranquilas. 
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Sadi - Um Peregrino da Palavra
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24 de janeiro de 2013

# Nobel ao Cuiabano

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Segundo informação veiculada pelo Estadão, o escritor mato-grossense, Manoel de Barros, é um dos possíveis indicados a concorrer ao prêmio Nobel de Literatura 2013. 

O poeta confessa a natureza como fonte de inspiração, e o pantanal em especial, o universo em que se deixa encantar. Leia aqui o que ele diz sobre sua obra. É de fato um homem extraordinário. 

“Que as minhas palavras não caiam de louvamentos à exuberância do Pantanal. Que eu não descambe para o adjetival. Que o meu 


11 de janeiro de 2013

# O leitor, onde está o leitor?, por Affonso Romano Sant'Anna

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Artigo de Affonso Romano Sant'Anna
Publicado no site Rascunho
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Os editores brasileiros revelam que estão publicando livros “demais”. Isso é uma verdade ou um mal-entendido? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, disse que publica 280 títulos por ano e que “não dá para crescer mais com obras de mercado, até porque o mercado está muito competitivo. (…). Há editoras que hoje não conseguem entrar em redes de livrarias com um exemplar de algum título. Há uma superprodução. De livros, escritores, editores, um número de editoras grande surgindo”.

Sérgio Machado, da Record, informa que em 2010 o Brasil editou 55 mil títulos, numa média de 210 obras por dia útil. Só a Record coloca no mercado 80 títulos por mês. Seu proprietário revela que tem 2 milhões de livros em galpões que lhe custam uma despesa alta.

Há uma crise no ar. Uma crise paradoxal. De excesso e de carência. Excesso de livros ou carência de leitores? Assim como um copo com metade de água pode ser visto como um espaço metade cheio ou metade vazio, permitam-me examinar a questão por outro ângulo, fazendo uma correção: o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos. Há que “produzir” o leitor. E não estou falando de alfabetização. Essa cadeia do livro não existe sem o destinatário: o leitor. Não há excesso de livros, há falta de bibliotecas, de livrarias e de leitores. Há, por outro lado, centenas de iniciativas governamentais e particulares tentando corrigir isso. Todos, não só os editores, temos que modificar o conceito de livro, livraria, biblioteca, leitor e leitura, pois na verdade todo esse sistema em torno do livro está em crise (ou metamorfose).

Mas que crise é essa? Quantas crises há dentro desta crise?

CRISE EDITORIAL

1. Atualmente os editores estão disputando um mercado de eleitos, um mercado mínino de consumidores. Ninguém sabe quantos são.

5 de janeiro de 2013

1 de janeiro de 2013

# Receita de ano novo, por Carlos Drummond de Andrade

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Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
Novo
Até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
Mas com ele se come, se passeia,
Se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
Passa telegramas?)


30 de dezembro de 2012

# Lêdo Ivo

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Lêdo Ivo (Maceió, 18 de fevereiro de 1924 - Sevilha, 23 de dezembro de 2012), filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo Ivo foi um jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta brasileiro.

Seu primeiro livro foi As Imaginações. Fez jornalismo e tradução. Da sua vasta obra, destacam-se títulos como Ninho de Cobras, A Noite Misteriosa, As Alianças, Ode ao Crepúsculo, A Ética da Aventura ou Confissões de um Poeta.

Era membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de novembro de 1986 para a cadeira 10, sucedendo a Orígenes Lessa.


DISCURSO DE POSSE

Lêdo Ivo foi eleito em 13 de novembro de 1986, na sucessão de Orígenes Lessa e recebido em 7 de abril de 1987 pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa. Eis o 1º parágrafo de seu discurso de posse[2], já como membro da Academia Brasileira de Letras:

"Numa tarde de outono, um homem caminha pelas ruas de Londres. O frio e o vento o obrigam a encolher-se no seu sobretudo. Sozinho e desconhecido na metrópole que Verlaine comparou à Babilônia, esse homem é um exilado, expulso de sua pátria por um caudilho taciturno. E enquanto ele marcha entre as folhas que caem, em seu espírito flui a interminável reflexão sobre o seu país que, no outro lado do oceano, vive as turbulências do dissídio e do desencontro. Esta é a imagem que me ocorre de Rui Barbosa, o fundador da Cadeira nº 10: a do exilado."


26 de dezembro de 2012

# Os 15 melhores poemas de Paulo Leminski

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Por Revista Bula em web stuff

Pedimos a 15 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Paulo Leminski. Cada participante poderia indicar entre um e 15 poemas.
Escritor, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski foi um dos mais expressivos poetas de sua geração. Influenciado pelos dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos deixou uma obra vasta que, passados 25 anos de sua morte, continua exercendo forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Seu livro “Metamorfose” foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Entre suas traduções estão obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na música teve poemas gravados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guilherme Arantes; e parcerias com Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Wally Salomão.
Paulo Leminski morreu no dia 7 de junho de 1989, em consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos.
Os poemas citados pelos participantes convidados fazem parte do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organização de Fred Góes, editora Global. Abaixo, a lista baseada no número de citações obtidas.


19 de dezembro de 2012

# Aniversário de Manoel de Barros

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A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
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Manoel de Barros
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18 de dezembro de 2012

# Desejo, por Carlos Drummond de Andrade

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Desejo a você... 
Fruto do mato 
Cheiro de jardim 

Namoro no portão 
Domingo sem chuva 
Segunda sem mau humor 
Sábado com seu amor 
Filme do Carlitos 
Chope com amigos 
Crônica de Rubem Braga 
Viver sem inimigos 
Filme antigo na TV 

9 de dezembro de 2012

# Contos russos, nossos contemporâneos

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Tirania, miséria, burocracia, frustração, loucura, infâmia: todos os ingredientes da vida brasileira estão presentes nos contos russos do final do século 19 e início do 20
O que há em comum entre o país narrado pelos grandes autores russos do século 19 e início do 20 e o Brasil? Muita coisa, como a tirania, a servidão, a miséria, o povo ao relento. Falta apenas o talento, fonte de gênios da literatura, que souberam transformar a nação reportada num cenário inesquecível do drama humano. Neste ensaio, abordamos contos de Tolstói, Górki e Turguêniev, entre os mais conhecidos, e outros nomes mais ocultos, como Kuprin, Sologue, Búnin, Andreiév, Garshin, Ko­rolenko e Tchirikon. Eles expressam com lucidez e impiedade o que há de mais valioso num país diante do seu destino: a população que luta pela sobrevivência e sonha para se manter à tona.

O alpinismo social na tirania

A sociedade radiografada pelo gênio de Tolstói em “A Morte de Ivan Ilitch” e “Senhores e Servos” (do livro “As Obras-Primas de Liev Tolstói”, Ediouro, tradução de Mar­ques Rabelo e Boris Sch­naiderman) é a que mais se parece com a do Brasil velho de guerra. O primeiro conto, ou novela, considerado obra-prima da literatura universal, aborda a classe média ascendendo por meio da carreira nos órgãos públicos. Esse alpinismo em direção ao estamento se faz com ambição e mediocridade, com falsidade e tenacidade, com a reprodução, por gerações, dos mesmos papéis sociais passados de pai para filho, pela sociedade de classes onde se insere a casta privilegiada de juízes e promotores. A disputa pelo butim, o arrivismo na troca de governos, a prepotência do mando e das assinaturas diante de uma população desarmada e pobre, tudo está lá, de maneira límpida e absolutamente cruel.


8 de dezembro de 2012

# Sabendo francês podemos ser mais felizes, por Ignácio de Loyola Brandão

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04 de novembro de 2011 | 3h 06

Não me considerem esnobe, exibido. Mascarado, como se dizia na minha infância. Não usam mais a palavra? Tão atual. O que há de gente mascarada no mundo. Vou dizer o óbvio. Para desfrutar melhor Paris, a Provence celebrada, e outros, sabendo francês, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que você tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros, que pedem descontos em português mesmo e em altos brados (ou em brado retumbante), vale a pena aprender francês.

O parisiense muda quando você se dirige a ele na sua língua, ainda que precariamente, como eu. Quem não gosta de uma pessoa que chega e você percebe o esforço que ela faz para se expressar em sua língua natal? Assim, vale a pena aprender francês para poder caminhar à vontade em Paris deixando-se envolver por ela, sabendo um pouco mais.


7 de dezembro de 2012

# Para McEwan e Pinker, o significado das palavras vale bilhões

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Duas das mais destacadas figuras em suas áreas, o escritor inglês Ian McEwan e o psicólogo evolucionista Steven Pinker se encontraram em 2007 para debater aquilo de que mais entendem, embora de pontos de vista diferentes: a linguagem.

Aclamado por obras como "Amsterdam" (Booker Prize de 1998), o recente "Na Praia" e a obra -prima "Reparação" --inspiradora do filme "Desejo e Reparação", que concorreu ao Oscar deste ano--, McEwan é o mais importante escritor inglês em atividade.

Já Pinker, professor na Universidade Harvard (EUA), é um grande estudioso das origens e dos mecanismos da linguagem, além de divulgador do tema em livros como "O Instinto da Linguagem".

A conversa inusitada, que o Mais! reproduz a seguir, ocorreu no Festival de Literatura de Cheltenham (Reino Unido) e foi publicada originalmente no último número da revista "Areté".


# Os 10 maiores poemas brasileiros de todos os tempos

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Pedimos a 50 convidados — escritores, críticos, professores, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de autores brasileiros em todos os tempos. Cada participante poderia indicar entre um e dez poemas. Nenhum autor poderia ser citado mais de uma vez. 40 poemas foram indicados, mas, destes, apenas 24 tiveram mais de três citações. São eles: “A Máquina do Mundo”, “Procura da Poesia”, “Áporo” e “Flor e a Náusea”, de Carlos Drummond de Andrade; “O Cão Sem Plumas”, “Tecendo a Manhã” e “Uma Faca Só Lâmina”, de João Cabral de Melo Neto; “Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima; “O Inferno de Wall Street”, de Sousândrade; “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga; “Cobra Norato”, de Raul Bopp; “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles; “Vozes d'África”, de Castro Alves; “Vou-me Embora pra Pasárgada” e “O Cacto”, de Manuel Bandeira; “Poema Sujo” e “Uma Fotografia Aérea”, de Ferreira Gullar; “Via Láctea” e “De Volta do Baile”, de Olavo Bilac; “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias; “As Cismas do Destino” e “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos; “As Pombas”, de Raimundo Correia; “Soneto da Fi­delidade”, de Vinícius de Moraes.
Abaixo, a lista baseada no número de citações. Por motivo de direitos autorais, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados.


6 de dezembro de 2012

# Tchau, mestre...

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Toda escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história. Assim fugiríamos da figura do especialista e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida.
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Oscar Niemeyer
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4 de dezembro de 2012

# Paulo Leminski

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Sintonia para pressa e presságio
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Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,

eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
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Paulo Leminski
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3 de dezembro de 2012

# No Caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,