22 de novembro de 2014

# O resgate de um gênero literário esquecido: a parábola

Em seu novo livro, O que eu disse ao general (Oitava Rima, 2014), Anderson Fonseca atravessa a fronteira do conto, confrontando-se com um gênero literário pouco praticado em nossos dias: a parábola.

Talvez muitos leitores se esquivariam da leitura de um livro dito como “coletânea de parábolas”. Portanto, precisamos esclarecer algo. A parábola tradicional, como aquelas que encontramos na bíblia, possuem uma narração alegórica que contêm algum preceito moral – por exemplo as contadas por Jesus sobre O bom samaritano e O filho pródigo. Mas as parábolas que encontramos em O que eu disse ao general não possuem qualquer inclinação religiosa. E, ainda assim, demonstram o fanatismo humano, cuja ignorância se esconde atrás de uma causa ou bandeira.



O livro possui trinta e seis textos curtos – muitos deles dedicados a governantes, como Hugo Chávez, Yasser Arafat, Barack Obama, entre outros – que convergem em torno do tema político. No entanto, Anderson Fonseca opta por não entregar tudo ao leitor, da mesma forma que a boa literatura. Há uma mensagem nos textos, porém cabe a quem lê interpretar. Não possuem significados prontos, como se ecoasse uma referência kafkaniana, mas ainda assim com uma voz segura do próprio autor.

Por exemplo, em De onde vem o poder, um filho faz a pergunta que dá título ao texto, questionando seu pai. Um dos temas mais aprazíveis da literatura se revela aqui, a confrontação do mundo adulto, com suas incompreensibilidades, partindo de uma criança. O pai gira em torno de suas respostas, da arma?, da voz de comando?, de saber falar? E quando o filho afirma compreender, lança em seguida a pergunta: por que alguns homens conquistam seu povo e depois o massacram?

Nos textos do livro também se encontram peças de tons fabulescos, como Senado. Esta narrativa acompanha uma conversa entre gatos, que discutem o que farão com os ratos que pedem por igualdade de direitos, seguindo-se um desfecho que fala sobre controle de massa com um discurso muito apropriado ao contexto.

Na mesma linha, Enterro é um texto curtíssimo que retrata o solilóquio de um general que chega aos portões de uma bela cidade e descreve as maravilhas que vê. Porém o arremate da narrativa nos deixa suspensos, pois acreditamos no que o general afirma que irá fazer com a cidade após decidir torná-la sua.

Se uma palavra resumisse O que eu disse ao general seria “condensação”. As pequenas histórias possuem um tom poético sem se render a um estilo sorumbático, optando antes por uma simplicidade que nos envolve.

Em poucos minutos podemos ler este livro, mas quanto tempo levaremos para digerir sua mensagem? E o que diríamos aos generais? Ou agiríamos da mesma forma que eles, caso tivéssemos oportunidade?


Por Vilto Reis, em 13 de novembro de 2014,
para o sítio literário Homo Literatus

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