26 de novembro de 2014

# O massacre da Vila do Rosário, por Paulo Pitaluga

Mato Grosso, 1892. A situação política era tensa e extremamente grave, como reflexo imediato de acontecimentos ocorridos no ano anterior.

A 3 de janeiro de 1891 haviam se realizado eleições para a Assembléia Constituinte, vencidas pelo Partido Nacional Republicano - PNR, cujo chefe inconteste era o General Antonio Maria Coelho, Presidente Aclamado do Estado de Mato Grosso. Exonerado esse primeiro Presidente, por instâncias e dissidências com Generoso Ponce o chefe do Partido Republicano - PR, assumiu a Presidência do Estado o Cel. Frederico Solon Sampaio Ribeiro. Este, convencido das ilegalidades cometidas pelo Partido Nacional, anulou as referidas eleições de 3 de janeiro. 

A 28 de maio, nova Assembléia Constituinte foi eleita com maioria dos deputa-dos do PR, nesta altura já no poder e esta Assembléia, de forma indireta, conforme preceito constitucional vigente, elegeu como Presidente do Estado o Dr. Manoel Murtinho e 1o., 2o. e 3o. vice-Presidentes, respectivamente, Generoso Ponce, José da Silva Rondon e Pedro Celestino Corrêa da Costa. No entender dos membros do PNR, o ato de anulação das eleições fora uma simples manobra política do partido adversário, tal seja, um golpe de estado visando a tomada do poder.




Em contingência da instabilidade política que passou a se verificar no Estado, a 22 de janeiro de 1892 eclodiu em Corumbá um movimento armado, visando a derrubada do governo instalado e presidido por Manoel Murtinho e ainda, por instâncias de seu vi-sionário chefe, o Cel. João da Silva Barbosa, pretendeu até mesmo proclamar uma república em Mato Grosso.

Os reflexos dessa quartelada chegaram a Cuiabá a 1o. de fevereiro de 1892, ocasião em que o Major Caetano Manoel Faria de Albuquerque depôs o Presidente Manoel Murtinho. O Presidente deposto seguiu para o Rio de Janeiro, assumindo em seu lugar uma Junta Governativa Provisória composta de Aníbal da Motta, Luís Benedito Pereira Leite e José Marques Fontes. Em poucos dias, tal junta resolveu dar posse a Luís Benedito Pereira Leite, o 1o. vice Presidente da Assembléia Constituinte eleita a 3 de janeiro, a mesma eleição que fora anulada pelo Presidente Solon.


Em poucas semanas sucederam-se no governo estadual, André Virgílio Pereira de Albuquerque, uma nova Junta Militar e, logo a seguir, José Marques Fontes, ficando visivelmente o Estado num total caos administrativo e sem qualquer comando.


Eleições anuladas, anulação contestada, nomeações e demissões de Presidentes do Estado, golpes, contragolpes e quarteladas.


Diante desses fatos, Generoso Ponce organizou a denominada Legião Floriano Peixoto com tropa formada pelos seus correligionários arregimentados de várias localidades do Estado. Iniciou assim uma contra-revolução, visando o retorno à ordem democrática. Tal ação armada, linguagem preferida da maioria dos políticos da época, redunda-ria na retomada do poder a 7 de maio, com o chefe revolucionário à frente de 3.000 homens de sua Legião, assumindo a Presidência do Estado na qualidade de 1o. vice eleito pela Assembléia de 28 de maio de 1891. A 15 de agosto, com o retorno de Manoel Murtinho do Rio de Janeiro, Generoso Ponce transmitiu a ele o cargo de Presidente do Esta-do de Mato Grosso.


Nesse interregno de caos político e administrativo, ocorreu o Massacre da Vila do Rosário, hoje cidade de Rosário Oeste.


Durante o processo contra-revolucionário, na então Vila do Rosário, um grupo de seringueiros armados e mais homens recrutados no interior integravam a Legião Floriano Peixoto, comandada por chefes políticos locais leais a Generoso Ponce. O governo revolucionário, sabendo dessa movimentação de tropa contrária, deslocou de Cuiabá uma força militar comandada pelo Major do Exército Gustavo Pereira de Mesquita, com a finalidade de dar combate à Legião poncista estacionada na então pacata vila, bem como desalojar as autoridades municipais murtinhistas que não queriam deixar os seus cargos públicos. Como sub-comandante dessa força, seguiu o tenente Cunha e Cruz. A unidade militar era composta de 50 homens. 


Os chefes da Legião rosariense, sabedores de antemão da investida militar, retiraram as suas tropas para a fazenda de uma correligionária, D.Maria Felismina de Almeida, cerca de uma légua de distância da vila. Esse fato sem dúvida proporcionou uma tranquila aproximação das tropas de Gustavo de Mesquita.


A 28 de abril de 1892, chegadas as tropas governistas à vila, considerando o aspecto tranqüilo e calmo do lugarejo e achando mesmo não haver mais contra-revolucionários em Rosário, o comandante determinou que sua tropa acampasse no largo principal, em frente ao prédio da cadeia pública. Logo o comandante iniciou negociações com o chefe político local, o comendador Gabriel de Moraes e Souza.


Empenhando a sua palavra, o comendador prometeu ao mesmo, em nome das autoridades locais, que os murtinhistas renunciariam aos seus cargos e deporiam as armas no dia seguinte.
A tropa de Mesquita, com seus homens cansados da viagem a pé desde Cuiabá, ensarilhou as suas armas e, ao relento, fez os seus bivaques, sem maiores preocupações em adotar medidas mais adequadas de segurança. 


Na calada da noite, os contra-revolucionários aproximaram-se da vila. Na alta madrugada, os membros da Legião Floriano Peixoto, num ataque rápido e sangrento, acometeram furiosos sobre a tropa governista. Esta, pega de surpresa, na confusão que se seguiu, foi totalmente massacrada. Foram imediatamente degolados, segundo a tradição oral, o sub-comandante Cunha e Cruz, outro oficial, o Tenente Gomes e um tal sargento Garriga. Poucos soldados conseguiram escapar com vida.
O comandante foi preso e obrigado a assinar uma série de declarações em que se procurava disfarçar a matança efetuada em Rosário pelos contra-revolucionários.


Presume-se em 45 o número de militares mortos, barbaramente chacinados pelas tropas poncistas da Legião Floriano Peixoto, em pleno largo principal da Vila de Rosário.


Enterrados os mortos, perseguidos e talvez abatidos os que conseguiram fugir, a Legião Floriano Peixoto tomou rumo de Cuiabá, para auxiliar no assalto final à capital pelas tropas contra-revolucionárias de seu chefe Generoso Ponce.


Ressaltamos que a história desse massacre perpetrado em tempos de revolução armada, foi sempre omitida pelos historiadores que se ativeram aos fatos passados de Mato Grosso, relativos aos período conturbados dos primeiros anos da República. Na época, apenas Vital d'Araujo relatou esse massacre em suas Reflexões Críticas sobre a Revolução de Mato Grosso.


Generoso Ponce Filho, em seu livro Generoso Ponce - Um Chefe e Virgílio Corrêa Filho, na sua História de Mato Grosso, que com tanta evidência registraram o Massacre da Baía do Garcez, adredemente colocando Totó Paes como o mandante de tal chacina, simplesmente não relataram o Massacre de Rosário em seus compêndios históricos. Preferiram esquecer o episódio...


É óbvio que, se esse fato ocorrido na vila do Rosário tivesse sido relatado, as gerações futuras teriam dúvidas em relação à propalada dignidade e probidade do líder Generoso Ponce. Ficaria certamente alguma coisa no ar, algo inexplicado. E os historiadores acima mencionados, um filho e outro correligionário de Ponce, simplesmente preferiram omitir a tal chacina, a tentar explicar a isenção do chefe Generoso Ponce em tão triste episódio. Seria mais escorreito relatar o massacre e demonstrar que Ponce nada teve a ver com o fato. 


Antonio Fernandes de Souza, em seu livro Antonio Paes de Barros e a Política de Mato Grosso, já em 1958, se ateve ao triste episódio do massacre de Rosário, numa obra que, sem lançar máculas a Generoso Ponce, somente pretendeu defender Totó Paes.


E realmente é tão ridículo se pretender culpar diretamente Generoso Ponce no Massacre de Rosário, cometido pelos seus correligionários, como não isentos foram Generoso Ponce Filho e Virgílio Corrêa Filho em imputar culpa a Antonio Paes de Barros pelo Massacre da Baía do Garcez. Mas é muito sintomático esses dois historiadores referirem-se apenas à baía do Garcez e “esquecerem” de relatar o episódio de Rosário.


Numa análise isenta, pode-se até presumir que o massacre da baía do Garcez possa ter sido uma vingança dos correligionários de Totó Paes, em face do massacre de Rosário sofrido pelos mesmos anos antes.


O Massacre da Vila do Rosário perpetrado pelas tropas da Legião Floriano Peixoto, chefiadas por Ponce, onde foram chacinados cerca de 45 soldados e oficiais do Exército brasileiro e da Força Pública de Mato Grosso, foi um triste e lamentável episódio de nosso passado que, dentro de um processo de revisão histórica, tem de ser recontado e relembrado à geração presente e às futuras.


Em processos políticos revolucionários, no passado de Mato Grosso e no do Brasil de forma geral, as partes envolvidas em conflitos armados sempre se viam às voltas com inúmeras atrocidades e violências. Nem por isso, os respectivos chefes foram os mandantes diretos ou os responsáveis maiores por toda a sorte de barbaridades cometidas em nome de restaurações democráticas, de revoluções salvadoras ou contra revoluções institucionais.


É o caso dos massacres da Vila do Rosário em 1892 e da Baía do Garcez em 1901. Nada há que se imputar pessoalmente a Generoso Ponce nem a Antonio Paes de Barros nesses dois episódios. Esses dois políticos mato-grossenses, diretamente, nada tiveram a ver com esses massacres, sendo ambos perpetrados sem suas ordens, consenti-mento ou conhecimento.


Bibliografia
ARAUJO, Vital de. Reflexões Críticas sobre a Revolução de Mato Grosso.
MENDONÇA, Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso.
SOUZA, Antonio Fernandes de. Antonio Paes de Barros e a política de Mato Grosso.

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